DUAS DEFINIÇÕES DE ARQUITETURA (EXPLICADAS) - Parte 2


“Arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes sob a luz” (Le Corbusier)

Extrato do texto Arquitectura, juicio, proyecto, de Helio Piñón, publicado aqui.


"Não estou tentando corrigir uma das aproximações à arquitetura mais competentes que se conhece, mas aproveitar precisamente os termos vagos da definição para delimitar com precisão o sentido que possui, a meu juízo, o objeto arquitetônico.

Le Corbusier faz uma descrição fenomênica da obra: para isso, utiliza um substantivo e três adjetivos que traduzem a complexidade do fato arquitetônico. Jogo, no duplo sentido de processo e resultado do mesmo. Efetivamente, do mesmo modo que no jogo, o projeto tem regras que controlam ações encaminhadas a um final indeterminado, mas não casual; o resultado é imprevisível, embora não seja indiferente às ações que constituem o processo.

Sábio, porque acumula o conhecimento do passado, cada ação deve contar com todas as que lhe precederam. É um jogo no qual a consciência de quem atua transcende o propósito de vencer. Não se trata de alcançar o objetivo, já que não há nenhum objetivo pré-fixado pelas regras, e o propósito é de natureza distinta à das regras observadas. Sábio, porque acontece no cruzamento de dois tempos: o atual, que propicia a consistência, e o histórico, que garante o sentido.

Correto, significando que, por meio do bom uso das regras, aspira à perfeição do resultado. Um resultado o qual, além de buscar a exatidão e a precisão, deve resultar excelente, admirável, logo, magnífico.

A definição de Le Corbusier incorpora muitos dos atributos da arquitetura, desde o ponto de vista de quem a reconhece e desfruta; se trata da definição de um espectador de arquitetura inteligente e sensível. No entanto, não abrange os aspectos da arquitetura que têm a ver com o projeto e, portanto, com a constituição de seus objetos. Na verdade, se pode falar realmente de regras a propósito do projeto? Como deve entender-se o termo “correção”? Que entende Le Corbusier por “magnífico”?

É evidente que o termo sábio pode ser interpretado como a qualidade que condensa as de culto, educado e inteligente, isto é, não se trata de um jogo espontâneo, ingênuo nem banal. Por outro lado, não é tão óbvio o sentido do termo correto. Que sentido se deve dar à ideia de perfeição em arquitetura? Immanuel Kant, quem abordou a questão com maior inteligência e lucidez, fala de finalidade para descrever a consistência formal da obra de arte, isto é, o sistema de conexões que vinculam as partes ao todo e vice-versa.

Uma finalidade que Kant relaciona com a que é própria das relações internas que constituem os seres vivos, ainda que com a diferença essencial de que essas relações estão orientadas a um fim concreto, como é o de garantir o funcionamento das partes que asseguram a vida, enquanto a finalidade da obra de arte é uma finalidade desinteressada, gratuita, já que não está subordinada a nenhum critério que não seja a própria consistência. Em outras palavras, a finalidade de uma obra de arquitetura é a propriedade que estabelece as relações entre suas partes, prescindindo do seu papel no funcionamento prático da casa: uma escada está bem disposta se as razões que determinam a sua posição transcendem o seu papel de permitir o deslocamento vertical.

Imediatamente é preciso assinalar que isso não significa, nem permite pensar, que para projetar com critério artístico se deve prescindir da função. Ao contrário, só as organizações que contemplam o lado prático são suscetíveis de chegar ao domínio do especificamente arquitetônico, mas levando em conta de que a eficácia de um projeto não conta muito na hora da sua avaliação estética. A correção a que se refere Le Corbusier é de natureza formal, a qual contém e transcende a correção prática ou funcional, ainda que não possa ignorá-la nem transgredi-la.

Por último, Le Corbusier fala de jogo magnífico – além de sábio e correto – para enfatizar que os dois outros atributos não são suficientes: a arquitetura produz em quem a habita o efeito do excelente e do admirável. O reconhecimento por parte do habitante ou espectador da sabedoria e correção com que foi projetada e construída uma obra provoca um prazer que não tem a ver com o que produz comprovar a perfeição de um motos de automóvel, por exemplo. O reconhecimento da formalidade da arquitetura, isto é, da sua condição de objeto estruturado com critérios formais, não produz uma mera satisfação intelectual – como no caso do automóvel – mas provoca no sujeito a experiência de um prazer estético.

Um prazer estético que é diferente do prazer sensível; enquanto o prazer estético é desinteressado, isto é, não melhora a realidade nem as expectativas do espectador, o prazer sensível satisfaz o sentido que o capta, daí que quando gostamos de uma comida, tratamos de comê-la – ocasionalmente – mais do que seria prudente. Sabemos que quando acabe a ingestão se acabará o prazer. Essa diferença se deve a que, como explica Kant com clareza, enquanto o prazer sensível satisfaz o sentido que o capta – na comida, o sentido do gosto – e aí termina o processo, no prazer estético intervém os sentidos como via de captação e transmissão da percepção, mas o juízo acontece na interação dos sentidos com a faculdade do conhecimento.

Mas não deve deduzir-se do que foi dito que a experiência estética se diferencia da sensível apenas no fato de que a razão corrige a impressão dos sentidos: a razão intervem antes da experiência, proporcionando as categorias com que atuam os sentidos. Assim se supera a confusão que produz a falsa contradição entre os sentidos e a razão; assim se esclarece o mal-entendido que congelou a teoria do conhecimento por causa de debates estéreis entre racionalismo e empirismo."

DUAS DEFINIÇÕES DE ARQUITETURA (EXPLICADAS) - Parte 1

“A arquitetura é a representação da construção” (Schelling)

Extrato do texto Arquitectura, juicio, proyecto, de Helio Piñón, publicado aqui.

"Schelling, em uma formulação feita há dois séculos, define o estatuto artístico da arquitetura delimitando a sua natureza ao universo mais amplo da construção. Não se fixa nos atributos das obras, situando seu campo de atuação na relação com a ação construtiva que disciplina.

Não obstante, seria ingênuo pensar que Schelling, ao falar de construção, se refere só à técnica construtiva. Efetivamente, o dicionário vincula o ato de construir a “ordenar e ligar”, o que se aplica tanto a materiais como a dependências e espaços, de modo que a arquitetura representa, por um lado, a construção física do edifício e, por outro, sua constituição espacial.

A frase de Schelling deixa claro que a construção – em sua acepção técnica material ou em sua vertente organizativa espacial – é a matéria da arquitetura, o objeto sobre o qual ela atua. A arquitetura não é, portanto, um sistema de princípios e critérios que se aplica aos corpos físicos ou aos espaços indiscriminadamente, mas que atua sobre uma matéria – a construção – previamente disciplinada pela técnica e sobre o agrupamento de espaços previamente ordenados pelo uso.

A construção de elementos ou espaços é pois a matéria prima sobre a qual o arquiteto atua para conseguir apresentá-la de modo que a forma representada tenha uma lógica visual que transcende – sem negá-las – as lógicas da técnica e do uso. Definitivamente, a arquitetura re-presenta, isto é, apresenta de modo distinto, tanto a técnica construtiva como a organização espacial dos edifícios.

Isso se consegue mediante dois sistemas, o da construção material e o da organização espacial, que caracterizam todas as arquiteturas da história: as ordens arquitetônicas e os sistemas tipológicos. Ordens e sistemas que, de modo explícito – em tratados e manuais – ou implícito – através das convenções da tradição – estimularam e, ao mesmo tempo, disciplinaram a arquitetura, pelo menos durante os últimos trinta e cinco séculos.

A arquitetura é, pois, o sistema de princípios formais e de critérios de projeto que, ao longo da história, representaram a construção  no sentido mais amplo. Se trata de sistemas que construíram os grandes ciclos estéticos da história e que não podem ser confundidos com as vicissitudes estilísticas que amenizaram os diferentes períodos. Tais sistemas gozaram de grande estabilidade histórica e só perderam vigência quando uma nova noção de forma foi capaz de assumir as condições sociais e técnicas de cada momento.

Schelling define de modo preciso o papel da arquitetura no processo mais geral da construção; um papel nada obvio, a julgar pela chamada arquitetura “do espetáculo”, mais empenhada em levantar inutilidades incômodas que a construir edifícios cuja condição formal assuma sem forçar nem coagir as previsões do programa."

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Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854) foi um filósofo alemão e um dos principais representantes do idealismo alemão. A carreira de Schelling foi marcada pela constante busca de um sistema que permitiria conciliar a natureza e o espírito humano com o absoluto, explorando as fronteiras entre arte, filosofia e ciência.

CONFERÊNCIA NA ETSAB/UPC

No dia 19 de fevereiro dei uma palestra na Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad Politécnica de Cataluña, Barcelona, a convite do catedrático do ateliê Projectes V (Projecte i Ciutat) e atual diretos da escola, Feliz Solaguren-Beascoa.

A apresentação foi em espanhol e o vídeo foi editado pelos responsáveis da plataforma upcommons, uma edição exemplar porque torna as imagens muito mais visíveis.

Espero que gostem. O vídeo pode ser visto aqui.


RETORNO DO DESENHO TRADICIONAL?

Até pouco tempo atrás, parecia que a batalha da representação arquitetônica tinha sido vencida pelos que optavam pelos renders. Muita gente hoje domina a técnica de produzir renders a partir de um aplicativo que roda sozinho ou de um plugin para os vários modeladores que existem, e depois tratá-lo em programas como Photoshop e similares, no que se costuma chamar de pós-produção. Não apenas os grandes nomes da renderizaçAo profissional, os Ronen Bekerman, Peter Guthrie e Mir da vida, mas estudantes de arquitetura interessados também produzem trabalhos de grande qualidade.

Que não se pense que tudo é obra da tecnologia. Um bom render depende da capacidade artística e do discernimento do autor quase tanto como dependiam as aquarelas e desenhos com lápis de cor da época em que eu era estudante formal (porque estudante eu continuo sendo).

Os perdedores aparentes dessa batalha eram os partidários do NPR (Non Photorealistic Render). Mas de repente começaram a aparecer desenhos com técnicas não realísticas (ou pelo menos não 100% realísticas) em tão grande número que já se pode falar em um movimento. Isso é notório não apenas nas escolas mas também na prática profissional, na produção de escritórios como Ted'A e Monadnock.

É algo que vale a pena olhar com cuidado. Certamente há lugar para esse tipo de representação. Há fases de um projeto que não devem ser apresentadas de modo realístico, assim como há tipos de projeto que são melhor ilustrados por desenhos não realistas.

Dois sites em que se encontra muitos exemplos desse tipo de desenhos são HIC e Koozarch.

E um bom texto publicado na revista Metropolis.

Marc Sanchez, Etsab, 4º curso, prof. Luis Alegre, publicado em HIC


Martina Dalla Bona & Alessia Cucciniello, Creative Tank Districtpublicado em Koozarch


Matthew Glover, Regeneration of the former Odeon cinema, Northumbria Universitypublicado em Koozarch


Ted'A Arquitectes, Escola Crissier



DA SABEDORIA DO ARQUITETO

Alberto Campo Baeza, Arquiteto, Prof. Catedrático ETSA Madrid
publicado em http://blogfundacion.arquia.es/2017/10/de-la-sabiduria-del-arquitecto/

T.S. Eliot estabelece uma distinção preciosa entre informação, conhecimento e sabedoria. Primeiro em seu poema A Rocha, de 1934, e depois em seu ensaio paradigmático O que é um clássico?, que é o texto do discurso magistral que pronunciou na Sociedade Virgiliana de Londres, em 16 de outubro de 1944.
Em A Rocha ele escreve:
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
Onde está a sabedoria que perdemos em conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos em informação? (versão de Jorge Luis Borges)
E em O que é um clássico ele escreve: Nesta nossa época em que os homens são mais propensos do que nunca a confundir a sabedoria com o conhecimento e o conhecimento com a informação.
Sou cada vez mais um fervoroso admirador de T.S. Eliot, talvez pelas mesmas razões dadas por Octavio Paz em seu discurso de aceitação do prêmio T.S. Eliot: “o imã que me atraiu foi a excelência do poema, o rigor da sua construção, a profundidade da visão, a variedade das suas partes e a admirável unidade do conjunto”.
T.S. Eliot era um verdadeiro sábio, além de um maravilhoso poeta, um poeta sábio. Porque devo confessar – atrevida confissão – que eu, que não sei nada, gostaria mesmo de chegar a ser um arquiteto sábio, como foram meus mestres. E da mesma maneira que, ao falar da Beleza, digo aos meus alunos que eles, como arquitetos, podem também alcançar a Beleza, que não está reservada apenas a seres especiais, agora lhes digo que podem chegar a ser sábios. Que podem alcançar a Sabedoria. Tentarei explicar o que quero dizer com isso.
Ter toda a informação está muito bem, porque se depois a filtramos e a ordenamos com critério, podemos chegar ao conhecimento. É uma pessoa com grande conhecimento, dizemos às vezes de alguns. Mas isso não basta. Porque depois, se não se é capaz de processar esses conhecimentos, não servem para nada. Mas se os “cozinhamos”, se os elaboramos com um fim preciso, eles se ativam e se tornam verdadeiramente úteis. Isso é o que fazem os sábios.
Estou convencido de que, do mesmo modo que a Beleza, a Sabedoria não está reservada apenas a uns poucos. Todos os sábios que conheci são, no aspecto pessoal, normais, simples, próximos; em uma palavra, humildes.

INFORMAÇÃO
Hoje temos mais fontes de informação que nunca, por meio dos meios informáticos. Nunca soube onde estão metidos esses milhares de pessoas que produzem, ordenam e põe à nossa disposição tal quantidade de informação. Google e seus congéneres são admiráveis. Dispõem e nos deixam dispor de uma quantidade de informação exaustiva e ordenada que faz com que alguns pensem que já não são imprescindíveis as Bibliotecas. Mesmo que isso nunca possa nem deva ser assim. Mas se a Biblioteca de Alexandria pegasse fogo, bastaria que alguém houvesse tido a preocupação e a paciência de armazenar toda essa informação nisso que chamamos CPU e que ocupa tão pouco espaço físico para que o desastre pudesse ser revertido.
Me lembro do meu último ano sabático na Columbia University, em Nova York. Todos os dias passava um tempo longo estudando na sua estupenda Avery Library, que é onde se situa a Escola de Arquitetura. Eu era o único que tinha livros sobre a mesa e que escrevia a mão, enchendo meus cadernos com afinco. O resto, em um silêncio sepulcral, estavam sumidos em seus computadores, isolados com seus fones de ouvido, e iluminados pela luz divina das suas telas. Jamais vi alguém levantar-se e consultar algum livro, nem escrever nada à mão.
E toda essa informação assombrosa está agora à disposição de milhões de usuários, de pessoas que na maioria das vezes perdem tempo com bobagens em seus iPads, iPhones e iPods.
Porque a informação não deixa de ser simplesmente informação. Se não é processada, permanece como um material inerte. Talvez sirva para fazer de alguém um erudito. Na escala do saber, conhecer e entender se situam nos níveis mais altos.

CONHECIMENTO 
Mas se a informação é processada, ordenada, elaborada, se alcança o estágio seguinte, que é o do conhecimento.
Sempre que escrevo algum texto o primeiro passo é escrever o roteiro. Claro que antes devo encontrar uma boa razão para abordar o tema. Neste caso, a leitura do maravilhoso texto de T.S. Eliot O que é um clássico? o qual, casualmente, me foi presenteado duas vezes na mesma semana, numa preciosa edição da Universidad Nacional Autónoma de México de 2013.
Quando, tendo uma grande quantidade de informação guardada na memória, se estuda e começa a relacionar suas partes, se acaba tendo um certo conhecimento sobre o tema de que trata. Isso é o que sempre entendemos como estudar um tema.
Assim, entendo que uma Escola, no meu caso uma Escola de Arquitetura, é não só um instrumento de transmissão de informação como também da sua elaboração. É um instrumento para a criação de conhecimentos e para a sua transmissão. Como o café em grãos, que precisa ser selecionado, tostado, moído e filtrado com água quente até que se obtenha a deliciosa bebida. E, talvez, depois da ingestão desse café estupendo, os neurônios despertem e até nos levem à sabedoria.
Há vários anos estudo as Meditações de Marco Aurélio, o texto que o estóico imperador escreveu em grego. Tenho já 44 edições diferentes em vários idiomas, e me alegra mencionar o enorme prazer que sinto ao ler esse texto. Mas lhes asseguro que ainda não sei nada sobre esse personagem tão surpreendente, nem sobre sua obra, ainda que já tenha me atrevido a publicar algum texto sobre ele e sobre as numerosas edições desse texto maravilhoso.
Recordo que, quando criança, sempre via meu pai estudando. E me perguntava: com o que sabe porque segue estudando? Meu padre era cirurgião e foi por um tempo auxiliar do Catedrático de Anatomia da Faculdade de Medicina de Valladolid. Seu currículo era brilhante. E ele era um verdadeiro sábio que nos deu exemplos toda sua vida, sem deixar nunca de estudar. O que eu agora procuro não deixar de fazer.
O conhecimento é a ciência, um saber que, a partir de muitos dados, e combinando indução e dedução, não me diz o que é, mas o que posso fazer. A ciência me diz o que posso fazer, mas não o que devo fazer. Assim se expressa Emilio Lamo de Espinosa num claro artigo, também apoiado em T.S. Eliot, sobre informação, ciência e sabedoria: a sabedoria trata de dar sentido à nossa existência. Sem sabedoria, a ciência não passa de um arquivo de instrumentos. E termina dizendo que vivemos inundados pela informação, com sólidos conhecimentos científicos, mas privados quase por completo de sabedoria.

SABEDORIA 
Seguindo a T.S. Eliot,  depois da informação e do conhecimento vem a sabedoria.  Mas o que é realmente ser sábio? Saber tudo de tudo? Saber tudo de algo? Porque depois de conhecer uma grande quantidade de coisas de alguma matéria, poderíamos dar um passo a mais, deveríamos chegar a algo mais.
Talvez seja algo parecido ao diagnóstico de um médico. Depois de ter toda a informação sobre o doente, filtrada pelo seu conhecimento médico, tudo deveria desembocar em um diagnóstico preciso, capaz de solucionar o problema.
No Livro dos Reis nos é contado como o jovem rei Salomão pede a Deus um ouvido atento, e como Deus lhe concede o dom da Sabedoria. Agora, Senhor meu Deus, me fizeste rei em lugar do meu pai Davi. Não sou mais do que um menino e não sei como me comportar. Rogo-lhe que dês a teu servo discernimento para governar o teu povo e para distinguir entre o bem e o mal.
Ao Senhor agradou que Salomão tivesse lhe pedido isso, e assim lhe disse: Como pediste isso, e não longa vida nem riquezas para ti, nem pediste a morte dos teus inimigos, mas discernimento para administrar a justiça, vou conceder o que pediste. Te darei um coração sábio e prudente, como ninguém antes de ti teve nem terá depois.
Por isso, quando falamos de sabedoria, não podemos deixar de mencionar o rei Salomão, o sábio Salomão. A sabedoria como capacidade de discernimento.

SOBRE A SABEDORIA DA ARQUITETURA
Claro que alguns de vocês dirão: o que faz um arquiteto escrevendo sobre sabedoria? Por quê? Para quê? O faço porque, entre muitas razões, creio que para fazer a melhor arquitetura possível, é necessário ser sábio. Quem sabe apenas de medicina, nem medicina sabe, dizia Marañon. Pois, quem sabe só de arquitetura, nem de arquitetura sabe, digo eu.
Lembro bem dos meus mestres, dos arquitetos que foram meus professores na Escola de Arquitetura de Madrid, que eram verdadeiramente sábios. Que bem sabiam discernir sobre arquitetura. Uniam sua condição de professores à de ser arquitetos extraordinários. Eram verdadeiros mestres. Suas críticas de projetos eram aulas em que falavam de tudo. Do seu poço repleto de sabedoria emergia a Filosofia, a História, a Música ou a Poesia, da maneira mais natural. Aquilo era algo mais que informação e muito mais do só conhecimento. Aquilo era sabedoria.
É que aqueles mestres eram sábios. Francisco Javier Sáenz de Oiza nas suas aulas apocalípticas, Javier Carvajal nas suas aulas precisas, Julio Cano Lasso em suas aulas preciosas e Miguel Fisac nas suas aulas sem aulas. Todos eram verdadeiramente sábios. Todos tinham capacidade de discernimento sobre a arquitetura, e sobre a vida. De cada um deles se podia dizer, empregando esta expressão tão espanhola, que era um poço de sabedoria. Eu gostaria muito de me parecer com eles.
Também eram sábios aqueles catedráticos ilustres por cujas mãos passei num curso seletivo na Faculdade de Ciências de Madrid nos anos 1960, a quem nunca esquecerei. Enrique Gutérrez Ríos, Salustio Alvarado e José Javier Etayo Miqueo eram verdadeiros sábios naqueles temas tão complexos de Química, Biologia e Matemática. Tão sábios eram que não apenas haviam adquirido o conhecimento daquelas matérias como nos o transmitiam com claridade meridiana, com um convencimento convincente.
Há pouco tempo publiquei um artigo chamado Projetar é pesquisar: um projeto de arquitetura é um trabalho de pesquisa. Porque creio firmemente que é assim. Queria que aquele texto, como este, fossem como cargas de profundidade. Naquele descrevo como, há mais de trinta anos, me atrevi a apresentar no concurso para catedrático um projeto meu em construção, a Biblioteca de Orihuela, como trabalho de pesquisa. E todos os membros daquela banca generosa, com Oiza e Carvajal à frente, o entenderam perfeitamente e o aceitaram como um trabalho de pesquisa.

DA HISTÓRIA DA ARQUITETURA
Como entender que a História da Arquitetura, com maiúsculas, está cheia de arquitetos que foram sábios?
Ictinos e Calícrates (séc. V a.C.), os arquitetos gregos do Partenon de Atenas era verdadeiros sábios. O Partenon, e antes a criação da Acrópolis foram algo fora do tempo, de ontem, de hoje e de amanhã. Não em vão, tanto Le Corbusier como Mies van der Rohe se fotografaram diante daquelas ruínas, como testemunho da sua atemporalidade, e como reconhecimento das raízes da sua arquitetura, que é a nossa. Como é agora Tasos Tanoulas (1947), o sábio arquiteto que atualmente restaura os Propileus.
E não foi Apolodoro de Damasco (50-130), o arquiteto do Panteon de Roma, um verdadeiro sábio? Sem dúvida. A operação estrutural e construtiva dessa maravilhosa obra não pode ser mais que o resultado de uma cabeça privilegiada de arquiteto. Cada vez que volto a estudar e analizar o Panteon romano continuo aprendendo.
E que podemos dizer de Marco Vitrúvio Polião (80 aC-15 aC) com sua De Architectura? Quantas vezes já utilizamos, de palabra e de fato, suas Utilitas, Firmitas e Venustas?
Andrea Palladio (1508-1580) era tão sábio que, além de fazer uma arquitetura de primeira e escrever os Quatro livros de Arquitetura, seguiu influenciando arquitetos até os nossos dias. E assim, pela sua mão, McKim, Mead e White (1869) constroem os edifícios mais representativos da Columbia University em New York.
Quando Michelangelo trabalhou como arquitetura no Campidoglio mostrou como era sábio, tornando visível o mundo, fazendo-o emergir naquele espaço nunca igualado. E, para arrematar, colocou ali nosso Marco Aurélio a cavalo, no centro do mundo, para tornar mais visível aquela operação espacial.
E a sabedoria de Sir John Soane (1753-1837) era tanta que, para contrariar o arquiteto do Panteon, para propor a sua leveza frente ao peso da cúpula romana, fez com que a luz das suas cúpulas suspensas resvale pelas bordas, como se flutuassem. Se isso não é sabedoria, que venha Deus e o veja.
E que poderíamos dizer dos dois velhos sábios Le Corbusier (1887-1965) y Mies van der Rohe (1886-1969)? Ambos se fazem fotografar orgulhosos na Acrópole diante do Partenon, como querendo testemunhar que eles, os mais modernos, têm seus pés, suas raízes, na História, e assim revolucionar o mundo e construir a nova História.
E até Jorn Utzon (1918-2008) que, como um velho druida, se aposentou com sua sabedoria em sua casa de Mallorca. Ainda soam os ecos não só da sua ópera de Sidney, ou de Can Lis, mas também do seu Plataformas e Platôs, um texto chave publicado em 1962 que tanto influenciou tantos arquitetos.

FINALE
Para fazer as coisas da melhor maneira possível na vida, em todos os campos, e também na arquitetura, deveríamos tentar nos aproximar da sabedoria, procurar ser sábios. Não só ter toda informação, não só elaborá-la e adquirir conhecimento mas, sobretudo, sempe estudar e discernir para, chegando à atingível sabedoria, fazê-lo como o melhor, ou até melhor que o melhor.
Já que começamos pela mão de T.S. Eliot, vamos terminar com ele. Porque, definitivamente, ese ser sábios não é mais que conseguir conjugar o tempo, pasado, presente e futuro. O que o nosso poeta propõe em Burt Norton, o primeiro dos seus Quatro Quartetos:
Time present and time past / are both perhaps present in time future / and time future contained in time past. / If all time is eternally present / all time is unredeemable.